Desafios de ser neurocirurgiã no Amazonas
Ser neurocirurgiã nesta região requer resiliência, persistência e coragem para ser e permanecer
Caro leitor, você já se perguntou como é a rotina de um especialista em neurocirurgia que atua na região norte do Brasil? Como é a formação, as dificuldades e desafios enfrentados por estes profissionais? Nesta edição da SBN Hoje, te convidamos a ler o relato pessoal de uma de nossas médicas associadas. Que as próximas linhas te façam refletir sobre as diferenças que existem em nosso país.
— Sou amazonense, natural de Manicoré, município no interior do Amazonas. Me mudei para Manaus para seguir meus estudos a partir do Ensino Médio, quando comecei a nutrir o sonho de ser médica. Após muito estudo e dedicação, e com todo suporte familiar, formei-me médica pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), sendo a primeira médica da minha família. Já no início da faculdade, mesmo sem referenciais, decidi que seria neurocirurgiã. Sempre tive muito fascínio pelo cérebro e por toda sua complexidade. Realizei minha especialização em neurocirurgia no Hospital Universitário Pedro Ernesto - Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Após a residência, realizei um ano de aprimoramento em Neurocirurgia Vascular e de Base de Crânio na Universidade de São Paulo (USP), sob orientação do Dr. Eberval Gadelha e Dr. Marcelo Prudente. E, mais um ano de aprimoramento em Radiocirurgia e Neurocirurgia Funcional pelo Instituto D’Or de Ensino e Pesquisa (IDOR) – Rede Star/ Neurosapiens, sob orientação do Dr. Antonio De Salles e Dra. Alessandra Gorgulho.
O primeiro desafio surgiu já na formação, o número de mulheres neurocirurgiãs que ingressam na residência médica em neurocirurgia ainda é pequeno, diante de uma marcante presença masculina na especialidade. Durante a residência e como neurocirurgiã, os ambientes a que somos expostas, no geral, ainda carregam vieses de gênero (tendência em julgar uma pessoa de forma diferente, baseada em estereótipos e expectativas sociais sobre papéis e características de gênero). É comum que precisemos reafirmar quase que diariamente nossa competência, e esse esforço adicional é muitas vezes desgastante.
Concluir minha formação e retornar ao Estado do Amazonas foi uma decisão que tomei antes mesmo de ingressar na residência, sendo ao mesmo tempo um sonho e um desafio. Encontrei bastante resistência no meu retorno. Resistência associada em grande parte ao gênero, com várias tentativas de desqualificação do meu trabalho por me entenderem como alguém vulnerável.
Atualmente, somos quatro mulheres neurocirurgiãs atuantes no Estado, entre as quais estão: Dra. Êzari Fonseca, Dra. Cecília Grangeiro, Dra. Alyce Brito e eu, além de duas residentes, Dra. Emille Campos e Dra. Lorena Loureiro.
No Amazonas, os atendimentos em neurocirurgia são realizados apenas na capital Manaus, onde há somente um hospital público para atendimentos de urgência e emergência, um hospital universitário para procedimentos eletivos e um hospital de câncer que realiza o tratamento dos tumores cerebrais. O Amazonas é um estado de dimensões continentais, onde os rios são a principal via de acesso. Poucos municípios se interligam à capital por meio de estradas. A via aérea também é uma opção, no entanto de alto custo. Por vezes, temos que lidar com perdas e a frustração de não podermos ser resolutivos, quando se trata de atendimentos de urgência/emergência provenientes do interior, os quais não chegam em tempo hábil para receber tratamento adequado. Em relação ao sistema privado, há poucos hospitais disponíveis para realização de uma neurocirurgia com padrões equiparados a grandes centros.
Além disso, os recursos hospitalares da região nem sempre acompanham os avanços tecnológicos disponíveis nos grandes centros do eixo Sudeste-Sul do Brasil. Vivemos a dualidade da satisfação em contribuir com a saúde de uma população sabidamente carente de especialistas de alta complexidade, e do outro lado, o enfrentamento das dificuldades logísticas e de estrutura física.
Há o preconceito regional, tanto da indústria de materiais médicos quanto em termos de educação médica, e da visão que as pessoas têm do Amazonas em geral. Talvez seja em virtude da complexidade logística que onera os processos, ou simplesmente por verem a região norte sob um prisma de inferioridade. Exemplificando, recentemente, em um jantar científico em São Paulo, uma colega, por não saber de onde eu era, comentou: ''Ah, quem faz congresso em Manaus?”, com tom de desdém.
Desde o meu retorno, tenho feito movimentos para agregar tanto a saúde da população quanto na propagação de conhecimento na área, como o Simpósio em Distúrbios do Movimento, Jantar Científico em Radiocirurgia, Simpósio em Neurotrauma, 1º Mutirão de Cranioplastia do Amazonas, além de contribuir na organização do XXI Congresso da Academia Brasileira de Neurocirurgia. Agradeço a todos os apoiadores que viabilizaram a realização destes eventos. Acredito que quando multiplicamos conhecimento, multiplicamos cuidado de qualidade.
Outro desafio é manter-se academicamente ativa devido à distância dos grandes centros onde os principais congressos e cursos acontecem, além do alto custo. Apesar disso, tenho conseguido, com bastante esforço, estar em constante atualização.
Ser neurocirurgiã no Amazonas é enfrentar uma realidade de contrastes refletidos na complexidade da especialidade, na carência de recursos, no preconceito de gênero e na satisfação de poder cuidar de vidas em uma região marcada por desafios geográficos e sociais.
Ser neurocirurgiã no Amazonas requer resiliência, persistência e coragem para ser e permanecer. Tenho muito orgulho do meu Estado, carrego e exalto esta regionalidade aonde quer que eu vá. Sigo com o compromisso em praticar uma neurocirurgia de excelência com ética e responsabilidade. Sou imensamente grata a todas que vieram antes de mim abrindo portas e tornando o caminho mais acessível e menos turbulento.

Dra. Jucilana Viana - Neurocirurgia & Radiocirurgia. Grupo Neurosapiens®️
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