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Mulheres na Neurocirurgia - Histórias em tempos de pandemia

Como foi, para elas, viver durante a maior crise sanitária dos últimos 100 anos

Em 11 de março de 2020, Harvey Weinstein, famoso produtor de Hollywood que serviu de estopim para o movimento nas redes sociais #MeToo, é condenado por estupro e abuso sexual por um tribunal de Nova York. No mesmo dia, Vladimir Putin, garantiu sua permanência no comando da Rússia até 2036, se consolidando como a única voz política relevante no país. E foi na mesma tarde daquela quarta-feira, que Tedros Adhanom, Diretor Geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), decreta pandemia do novo coronavírus.

Agora, dois anos depois, o mundo está em uma situação melhor. Segundo dados do Our World in Data, até o momento, quase 66% da população mundial já recebeu ao menos uma dose da vacina de COVID-19, mais de 11 bilhões de doses foram aplicadas em todo o mundo e mais de 6 milhões são aplicadas a cada dia, trazendo sensação de alívio para todos.

Para reforçar e valorizar a presenças das mulheres que escolheram a neurocirurgia como carreira e estilo de vida, a reportagem da SBN conversou com as profissionais para saber como foi passar por este período de incertezas, medos, anseios, cansaço - físico e mental - agora que o mundo começa a respirar novamente sem ajuda de aparelhos.

Incertezas a respeito da profissão e outros anseios

A Dra. Mariângela Barbi Gonçalves, conta que sentiu uma sensação de insegurança muito grande por causa de toda incerteza. Ela não sabia até quando precisaria manter o isolamento e como seria no hospital, porque praticamente todas as cirurgias não iriam acontecer mais, somente alguns casos de oncologia e emergência. "Vi minhas amigas que trabalham em Centros de Terapia Intensiva (CTI) fazendo hora extra dobrada. Muitas pessoas próximas faleceram, foi uma fase realmente difícil. Em relação à neurocirurgia a gente ficou em Stand By aguardando poder voltar a trabalhar nos casos que não eram de urgência e emergência. Fiquei duas vezes por semana, às quintas e sextas, trabalhando 12 horas no Centro de Terapia Intensiva para poder ajudar da forma que eu podia", comenta.

Foi em meio a esse turbilhão de sentimentos que a Dra. Mariangela ficou responsável por avisar os familiares dos pacientes que faleceram por conta da COVID-19 para irem ao hospital fazer o trâmite de sepultamento das vítimas. "Essa foi uma parte bem difícil. Toda quinta e sexta eu ligava para duas, três famílias para passar má notícia. Cada reação era diferente da outra, isso foi bem estressante. Eu acho que o cansaço emocional foi maior do que o cansaço físico".

Episódio marcante durante o período

Um senhor médico de 65 anos deu entrada no Centro de Terapia Intensiva, com insuficiência respiratória, o filho também médico, o trouxe sem máscara e em desespero ficou sentado no CTI. Uma semana depois ele faleceu e o filho nunca mais o viu. "Aquele último momento que vi o filho se despedindo do pai, indo embora, exausto, todo mundo com coronavírus, ele sem máscara e em desespero e o pai com insuficiência respiratória. Foi algo que vai marcar a vida inteira, porque ele não teve um ritual de despedida. O corpo saía lacrado e a família não podia abrir nem durante o sepultamento. Nunca mais iam ver aquele ente querido", relata.

Início de pós-pandemia, como está sendo o retorno à rotina

Em 26 de junho de 2021, a Dra. Mariangela foi eleita Presidente da Sociedade de Neurocirurgia do Rio de Janeiro (SNCRJ), ela diz que está se dedicando intensamente à sociedade e à vida associativa. "Somos seres sociáveis. É importante ter essa vida em sociedade, então eu estou me dedicando bastante. Minha agenda cirúrgica voltou nessa fase. A gente está retomando agora, nossos pacientes estão voltando a aparecer, então a agenda cirúrgica ficou abalada, a minha e de todo mundo", finaliza a primeira mulher neurocirugiã presidente de um congresso em nosso país.

Incertezas a respeito da profissão e outros anseios

Ao comentar como foi o período, a Dra. Adriana Rodrigues Libório dos Santos diz que essa fase foi um choque de realidade para todos. "O maior sentimento foi de insegurança e preocupação com a saúde dos meus familiares e amigos idosos. O cuidado foi redobrado no dia a dia, principalmente com meus amados pais e meus sogros. Já o trabalho nos hospitais teve que continuar, com todo o aparato de proteção, pois além da COVID-19 os pacientes também foram afetados pelas patologias neurocirúrgicas e precisavam de assistência", comenta a neurocirurgiã.

Foram dois os episódios marcantes relacionados à pandemia do coronavírus para a médica. Ela perdeu uma tia, na época infelizmente ainda não existia vacina. Já após as duas doses da vacina, sua sogra ficou internada no Centro de Tratamento Intensivo, mas ao fim deu tudo certo. "Nessas horas fica evidente como a vida é passageira. temos que fazer valer a pena a cada momento", diz.

Início de pós-pandemia e retorno à rotina

"Com a vacina realmente sentimos um alívio enorme. A rotina já normalizou com atendimentos e cirurgias. Os pacientes seguem precisando de assistência e estamos aqui para desempenhar nossa missão da melhor forma possível para a melhora deles. Estamos aqui para ajudar quem precisar", finaliza Dra. Adriana.

Estas são apenas algumas das dezenas de histórias de coragem, força, luta e competência de mulheres que desafiam o status quo dentro de suas carreiras. Elas buscam reconhecimento, oportunidades, respeito a fim de deixar a sua marca na história da neurocirurgia, já que, segundo o último Atlas Neurocirurgia de 2018, a especialidade segue sendo predominantemente masculina. Dentre os médicos neurocirurgiões em atividade em nosso país, 91,4% são homens e apenas 8,6% são mulheres.

Confira esta e outras reportagens na edição 43 da revista SBN Hoje clicando aqui.

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